Desde
que nascera que Martim se lembrava de ouvir falar no Velho.
Quando andava na escola primária, ia
logo pela manhã ao café do Sr. Joaquim, já por essa hora as pessoas comentavam
sobre o Velho. Este sempre fora um motivo de curiosidade na aldeia, pois
ninguém sabia nada de concreto sobre ele.
Um dia, ao lanche, depois de chegar da
escola, Martim perguntou ao avô porque é que toda a aldeia falava tanto sobre o
Velho.
- O Velho sempre foi muito estranho. E
já lhe chamavam Velho, mesmo quando era novo, disse o avô.
O rapaz ficou muito indignado e
perguntou por que motivo é que o Velho era tão estranho.
- É estranho, porque vive na serra,
longe de todos, sem se dar com ninguém.
Martim, que sempre tivera tantos
amigos, ficou a pensar como é que alguém conseguia viver sem se dar com
ninguém. O avô contou-lhe que o Velho vivia assim, porque tinha um segredo. O
rapaz não percebeu como é que um segredo é incompatível com o facto de se ter
amigos. Assim, decidiu ir falar com o Velho.
No sábado de manhã, levantou-se cedo e
saiu para a rua. Estava um dia de sol com uma temperatura muito agradável. Ao
subir a serra, logo se avistava a casa do Velho.
Era uma casa antiga, mas bem
conservada, com apenas uma janela e uma porta. A entrada tinha um canteiro com
umas ervas que nunca tinha visto. A porta estava entreaberta e, como Martim
nunca lidou muito bem com a curiosidade, entrou. Encontrou uma casa atulhada de
objectos antigos, de imensos livros e papéis, fazendo com que quase se perdesse
no meio de tudo aquilo. À medida que passava de sala para sala, parecia que
ainda existiam mais divisões. E a casa… que a ele lhe tinha parecido tão
pequena por fora, apresentava-se-lhe agora um sítio onde uma pessoa se podia
perder! A certa altura, o Velho apareceu e perguntou-lhe o que é que ele estava
ali a fazer. Martim ficou gélido e congelado, sem resposta. O Velho, ao vê-lo
tão assustado, convidou-o para almoçar. O rapaz, ainda consumido pela
curiosidade, aceitou.
Ao almoço, a conversa começou devagar,
com perguntas e palavras simples, e foi fluindo, até que Martim ganhou coragem
e questionou o porquê de o Velho viver ali sozinho e de forma tão isolada. O
Velho explicou-lhe que se devia ao facto de ele ter algo muito precioso naquela
casa e que não deveria ser deixado sozinho. Martim perguntou-lhe se poderia
saber o que era e o Velho respondeu-lhe:
- Podes, pois o que eu aqui tenho
deveria ser partilhado com o mundo, mas nunca quis saber. Acham-me uma pessoa
estranha.
- Dizem que tens um segredo, disse
Martim.
- Eu não tenho nenhum segredo. As
pessoas é que criaram esse segredo acerca de mim.
- Então o que é que tens de tão
precioso? – perguntou o Martim.
- Os meus livros. Foram eles que me
deram esta casa repleta de objectos do mundo inteiro, de imagens, de todas as
recordações e ideias dos sítios onde já estive, apesar de nunca ter saído
daqui, porque sempre viajei nos livros.
Ana Luísa, não imaginas como me senti feliz por uma jovem escrever um texto que termina com uma ideia que sempre defendi e tentei transmitir aos meus alunos e ao meu filho: a leitura é a maior preciosidade que podemos ter.
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