quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Escrita Criativa - com Leonor Tenreiro

 Formadora em escrita criativa, Leonor Tenreiro esteve na nossa escola nos dias 21 e 23 de Novembro, com turmas do 8º e 10º ano, com a finalidade de despertar para o prazer de criar através da escrita, favorecendo a descoberta do escritor que há em cada aluno. 
Esta atividade decorreu no âmbito do projeto da Comunidade de Leitores, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkien.
 

As atividades decorreram com muito entusiasmo e adesão por parte de alunos e professores envolvidos. Como alguém referiu, o clic para a escrita foi mágico e a Leonor tocou e encantou.


Concurso Ler em Português


Ler em Português é um concurso de intercâmbio entre escolas secundárias de Portugal e dos Estados Unidos, promovido pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura. Para o concurso de 2012/2013 já foram selecionadas as equipas que vão participar no corrente ano letivo. A escola Secundária de Maria Lamas concorreu com várias equipas, no âmbito do projeto da Comunidade de Leitores, tendo sido selecionada uma equipa, constituída pelos alunos Afonso Borga, Ana Luísa Silva e Inês Ferreira que estará sob a supervisão da professora Margarida Tomaz. O trabalho da equipa irá decorrer ainda com a colaboração da professora Bibliotecária e Coordenadora do projeto da Comunidade de Leitores Céu Rodrigues. Outros saberes e recursos serão bem vindos, nomeadamente trabalhos de alunos que tenham impacto na comunidade escolar, textos, vídeos, outros, e que poderão ser um contributo válido para divulgação de práticas da Escola Secundária Maria Lamas, em contexto de intercâmbio multicultural. Convidamos assim a comunidade escolar a dar o seu contributo no blog que esta equipa irá brevemente dinamizar, com trabalhos que serão publicados no referido blog que será visto por professores e alunos de escolas de Portugal e dos Estados Unidos.

O tema do concurso 2012/2013 é: LIBERDADE E SEGURANÇA NUMA SOCIEDADE PLURAL.

Os alunos vão desenvolver atividades em duas vertentes:
- dinamização de um blog que estará brevemente on-line e para o qual convidamos a comunidade escolar a participar com trabalhos dos alunos e de professores;
- elaboração de um trabalho pela equipa de teor expositivo-argumentativo que deverá ser enviado até 30 de Março.
Para mais informações, os participantes devem consultar o sítio do concurso: Ler em Português

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Chávena Lascada

Passaram-se anos, o mundo em que vivo já não é o mesmo em que vivemos e muitas vezes chego a acreditar que não passou tudo de um sonho. Mas olho para a única lembrança que tenho de ti e recordo. Tu foste real e esta saudade que eu sinto é real.

Eu não passava de um cobarde sozinho no mundo e, para a vida, tu eras a heroína da nossa história que não estava sozinha no mundo, mas estava sozinha para a vida.

Quando penso em tudo o que fomos, chego a pensar que foi tudo um acordo inacabado, mas olho para a única lembrança que tenho de ti e recordo.

O mundo do “faz de conta” em que vivemos durante um ano, ou mais, não me lembro do tempo que passei contigo, apenas me lembro que foi grandioso, importante, mágico.

Quando me cruzo com o teu pai e ele age como se não tivesses existido, eu chego a pensar que não passou tudo de uma ilusão, mas olho para a única lembrança que tenho de ti e recordo.

Para todos, eu não passava de um monstro que vivia com uma pesada maldição. E eu acreditava que era um monstro e agia como tal. Acreditava que não tinha sentimentos e vivia na solidão, a pensar que apenas o sofrimento dos outros me satisfazia. Mas então, tu entraste na minha vida e eu deixei de me ver ao espelho dessa forma. Passei a ver apenas uma pesada maldição, uma pesada herança que começava a desaparecer.

Quando me olho ao espelho e vejo que o monstro está de volta, assim como a pesada maldição, a pesada herança, chego a acreditar que foste apenas um vulto no nevoeiro. Mas olho para a única lembrança que tenho de ti e recordo.

Tu disseste-me uma vez “Qualquer maldição pode ser quebrada!” e eu não acreditei, não acreditei que alguém poderia amar-me e fui mau… e matei-te. Não com as minhas próprias mãos, mas levei-te a escolher a morte em vez da vida.

“Sabes, tu estavas a libertar-te. Poderias ter sido feliz, se acreditasses que alguém poderia amar-te, querer-te. Mas preferiste não arriscar”, foram estas as tuas últimas palavras, hoje, passados tantos anos, eu lembro-me de ti e tenho saudade do que tu fizeste de mim. Mas são essas saudades, essas memórias que me lembram que tu foste verdadeira, que tu exististe e não foste apenas uma feliz ilusão.

Olho para a única lembrança que tenho de ti e recordo, olho para a chávena que partiste e recordo. Pois a saudade, as lembranças, as memórias residem nessa única lembrança que eu tenho de ti. A chávena lascada.


Inês Ferreira

sexta-feira, 16 de março de 2012

Próxima sessão da comunidade de leitores

Na próxima 4ª feira, 21 de Março, pelas 14h30, a comunidade de leitores irá participar numa nova sessão de leitura e de escrita criativa. Até ao momento o grupo participou em duas sessões de escrita, uma dedicada ao medo e outra ao tema do segredo. Qualquer uma das sessões anteriores se revelou muito interessante e inspiradora e assim pensamos continuar. Aguardamos a participação de mais alunos. As atividades são promovidas num clima agradável, havendo em cada sessão uma estratégia lúdica diferente da anterior que tem por finalidade despoletar o escritor que há em cada aluno. Porque acreditamos no poder desta atividade fora da sala de aula, continuaremos a apostar nela, aguardando a participação de mais alunos. Para ajudar à valorização dos textos, temos a colaboração das artes, através da ilustração dos textos escritos.
Ilustração de André Letria

domingo, 11 de março de 2012

Para o Medo do Miguel Júnior

O Segredo

         Desde que nascera que Martim se lembrava de ouvir falar no Velho.
Quando andava na escola primária, ia logo pela manhã ao café do Sr. Joaquim, já por essa hora as pessoas comentavam sobre o Velho. Este sempre fora um motivo de curiosidade na aldeia, pois ninguém sabia nada de concreto sobre ele. 
Um dia, ao lanche, depois de chegar da escola, Martim perguntou ao avô porque é que toda a aldeia falava tanto sobre o Velho.
- O Velho sempre foi muito estranho. E já lhe chamavam Velho, mesmo quando era novo, disse o avô.
        O rapaz ficou muito indignado e perguntou por que motivo é que o Velho era tão estranho.
- É estranho, porque vive na serra, longe de todos, sem se dar com ninguém.
Martim, que sempre tivera tantos amigos, ficou a pensar como é que alguém conseguia viver sem se dar com ninguém. O avô contou-lhe que o Velho vivia assim, porque tinha um segredo. O rapaz não percebeu como é que um segredo é incompatível com o facto de se ter amigos. Assim, decidiu ir falar com o Velho.
No sábado de manhã, levantou-se cedo e saiu para a rua. Estava um dia de sol com uma temperatura muito agradável. Ao subir a serra, logo se avistava a casa do Velho.
Era uma casa antiga, mas bem conservada, com apenas uma janela e uma porta. A entrada tinha um canteiro com umas ervas que nunca tinha visto. A porta estava entreaberta e, como Martim nunca lidou muito bem com a curiosidade, entrou. Encontrou uma casa atulhada de objectos antigos, de imensos livros e papéis, fazendo com que quase se perdesse no meio de tudo aquilo. À medida que passava de sala para sala, parecia que ainda existiam mais divisões. E a casa… que a ele lhe tinha parecido tão pequena por fora, apresentava-se-lhe agora um sítio onde uma pessoa se podia perder! A certa altura, o Velho apareceu e perguntou-lhe o que é que ele estava ali a fazer. Martim ficou gélido e congelado, sem resposta. O Velho, ao vê-lo tão assustado, convidou-o para almoçar. O rapaz, ainda consumido pela curiosidade, aceitou.
Ao almoço, a conversa começou devagar, com perguntas e palavras simples, e foi fluindo, até que Martim ganhou coragem e questionou o porquê de o Velho viver ali sozinho e de forma tão isolada. O Velho explicou-lhe que se devia ao facto de ele ter algo muito precioso naquela casa e que não deveria ser deixado sozinho. Martim perguntou-lhe se poderia saber o que era e o Velho respondeu-lhe:
         - Podes, pois o que eu aqui tenho deveria ser partilhado com o mundo, mas nunca quis saber. Acham-me uma pessoa estranha.
         - Dizem que tens um segredo, disse Martim.
         - Eu não tenho nenhum segredo. As pessoas é que criaram esse segredo acerca de mim.
         - Então o que é que tens de tão precioso? – perguntou o Martim.
         - Os meus livros. Foram eles que me deram esta casa repleta de objectos do mundo inteiro, de imagens, de todas as recordações e ideias dos sítios onde já estive, apesar de nunca ter saído daqui, porque sempre viajei nos livros.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Medo

    O medo é algo constante, algo que nos faz mover, algumas vezes positivamente, outras vezes negativamente. Fisicamente, o medo intromete-se em muita coisa, até nas mais simples coisas. Se me perguntarem do que tenho medo, direi… Tenho medo de te perder, de nunca mais ver o pôr do sol contigo, de nunca mais acariciar a tua face, de nunca mais te ver, de nunca mais beijar o teu rosto. São estes os medos que se apoderam de mim e me deixam sem jeito, que me tomam e me fazem divagar… Divagar não sei para onde, não poderei dizer que o meu medo é físico, mas sim sentimental, é uma parte minha mais lamechas.
        Tenho medo da guerra, das pessoas desconhecidas, do desconhecido que se me apresenta turvo e disforme, em que nada faz sentido e sou tomado por ele… o medo. Nunca fui muito dado a essas coisas de ter medo, mas ultimamente apercebi-me que ele existe e está presente nas minhas recordações, pois tenho medo que nada volte a ser como dantes, como quando eu chegava a casa e tu dizias “ boa tarde”, dos verões em que íamos no carro, sem rumo, a ouvir música  e a cantar… mas o medo tomou-te e é pena… transformou-te naquilo que és hoje e me faz sentir afastado de ti.  Não digo que sejas fraca, mas digo sim, que te deixaste influenciar por um amedrontador, esse mesmo que agora me assusta, a mim, que me ria dos teus medos e que agora me faz ter medo de ti. O Medo que me toma faz-me pensar no porquê, porque é que ele decidiu intrometer-se na minha vida, na minha curta vida, que me obrigou a crescer rapidamente, porque é que ele me mostrou a realidade de forma tão brusca e seca. Mas de qualquer forma, eu tinha de crescer e o medo veio simplesmente adiar isso. Neste momento, sinto que o Medo é alguém que, em vez de progredir, regride, prejudicando assim os outros. Mas felizmente, todas as histórias contam que os Vilões ajudam os heróis a crescer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Medo

         Era sempre a mesma situação todas as noites. Sempre que chegava a hora de me deitar, sentia um nervoso no estômago, um formigueiro na coluna e os músculos a ficarem tensos. Apercebia-me logo, mal a mãe olhava para mim depois do jantar, que tinha chegado o momento de ir para a cama.
              A situação culminava no momento em que me deitava. A mãe dava as boas noites e ia directa ao interruptor para a apagar a luz. Eu pedia-lhe para deixar ficar. E logo ela começava a explicar-me que não havia necessidade de ter medo.
           No entanto, não era medo, pensava eu. Era falta de gosto pelo escuro. Pois o escuro fazia com que os monstros que viviam debaixo da minha cama acordassem. Também não tinha medo deles. Aliás, naquela idade pensava que não tinha medo de nada. Pensava sempre que era um simples “não gosto”. Sabia que existiam pelo menos três monstros, quando não vinham os amigos. Um deles era muito baixinho e gordo, e nunca dizia nada. Outro era muito alto e enfezado, com uma cara tão feia que o tornava o mais assustador. O último tinha um nariz enorme, uma cauda fininha e uma grande barriga.
              Eles nunca me tinham feito nada, mas isso devia-se ao facto de eu nunca lhes ter dado oportunidade para tal. Eu não me atrevia a colocar um pé fora da cama, no escuro, mas não era por medo, pensava sempre.
            Pensando bem, ainda hoje evito usar a palavra medo, mas sim admito, por medo do que ela me faça lembrar, das sensações que me possa trazer. Daquele sentimento de nervosismo e o formigueiro. Não gosto deles e tenho medo que eles aumentem. Por isso, com o tempo, deixei de pensar neles e no porquê deles. Deixei de pensar que existe medo, mesmo sabendo que ele está sempre presente. Mas, principalmente, deixei de pensar no medo como um monstro que vive debaixo da minha cama. E, assim, deixei de pedir à mãe para deixar a luz acesa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Medo



              Atracado no caís há já 13 dias, Clarstar mantinha-se firme e hirto, sem pestanejar, com frio e já com alguma fome decidiu mais uma vez explorar a zona que o circundava.

          Não comia nada desde a manhã e os parcos mantimentos que levara no barco chegariam agora para uns escassos dois dias. Tinha só três barris de rum e quatro de pólvora.

              Já putrefacto, o cadáver do seu companheiro emanava um cheiro nauseabundo e Clarstar decidira deitá-lo ao mar. Morrera de escorbuto, dez dias após se terem perdido e aportado àquela ilha deserta e misteriosa.
          Há já algumas horas que Clarstar ouvira o som de papagaios e aves exóticas. Caminhou alguns metros mas teve medo de avançar, aliás, era o medo que o impedia de se fazer ao mar e tentar regressar, o medo de se perder outra vez, o medo de arriscar, o medo de lutar.
             Clarstar tinha perdido a família no mar, durante um pacato passeio de Domingo e esta era a primeira viagem que fazia, após o trágico acontecimento. Pretendia ir viver para outro lado, para outro país, de forma a esquecer tudo o que vivera. Já tinha arriscado uma vez e via-se agora sem forças para lutar de novo.
              Não sabia o que fazer, estava completamente sozinho e perdido, se continuasse assim, iria morrer. As imagens daquela terrível tempestade que os tinha deixado perdidos no meio do Pacífico regressavam-lhe agora à memória com intensidade. Lembrava-se de ter acordado junto àquela ilha e, desde então, já por sete vezes tentara descobrir o que o rodeava.
              Tirou os três barris de rum e os quatro de pólvora do barco. Juntou-os todos e atou-os com uma corda. Puxou de um fósforo e, ao lançá-lo, ouviu-se um enorme … pi…pi…pi…pi…pi… era o despertador.
                Clarstar, um bem-sucedido homem de negócios finlandês, sabia agora que todos os dias valem a pena e que o medo não nos pode consumir!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O medo visto por alguns de nós

Mas afinal, o que é o medo? Porque existe? Quais as suas influências no que fazemos e somos? Da conversa na biblioteca, resultaram algumas frases marcantes que transcrevemos:


O maior medo está em nós próprios. 
O medo só é da dimensão que a nossa mente permite. 
Ter medo não é somente limitador, é também libertador, pois permite que o ultrapassemos.
Ana Luísa

Os mitos são respostas ao medo.    
Afonso Borga

O vilão é a síntese de todos os medos.    
Miguel Júnior

Aqui também somos escritores


A Comunidade de leitores da ESML criou um blog para publicação dos contos da sua autoria. Com leitores é o nome escolhido por unanimidade, que pretende, através da leitura, descobrir o potencial autor que há em cada um de nós. O medo foi o tema escolhido pela Comunidade de Leitores para o 1º conto que será publicado em breve.