quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Medo

         Era sempre a mesma situação todas as noites. Sempre que chegava a hora de me deitar, sentia um nervoso no estômago, um formigueiro na coluna e os músculos a ficarem tensos. Apercebia-me logo, mal a mãe olhava para mim depois do jantar, que tinha chegado o momento de ir para a cama.
              A situação culminava no momento em que me deitava. A mãe dava as boas noites e ia directa ao interruptor para a apagar a luz. Eu pedia-lhe para deixar ficar. E logo ela começava a explicar-me que não havia necessidade de ter medo.
           No entanto, não era medo, pensava eu. Era falta de gosto pelo escuro. Pois o escuro fazia com que os monstros que viviam debaixo da minha cama acordassem. Também não tinha medo deles. Aliás, naquela idade pensava que não tinha medo de nada. Pensava sempre que era um simples “não gosto”. Sabia que existiam pelo menos três monstros, quando não vinham os amigos. Um deles era muito baixinho e gordo, e nunca dizia nada. Outro era muito alto e enfezado, com uma cara tão feia que o tornava o mais assustador. O último tinha um nariz enorme, uma cauda fininha e uma grande barriga.
              Eles nunca me tinham feito nada, mas isso devia-se ao facto de eu nunca lhes ter dado oportunidade para tal. Eu não me atrevia a colocar um pé fora da cama, no escuro, mas não era por medo, pensava sempre.
            Pensando bem, ainda hoje evito usar a palavra medo, mas sim admito, por medo do que ela me faça lembrar, das sensações que me possa trazer. Daquele sentimento de nervosismo e o formigueiro. Não gosto deles e tenho medo que eles aumentem. Por isso, com o tempo, deixei de pensar neles e no porquê deles. Deixei de pensar que existe medo, mesmo sabendo que ele está sempre presente. Mas, principalmente, deixei de pensar no medo como um monstro que vive debaixo da minha cama. E, assim, deixei de pedir à mãe para deixar a luz acesa.

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