quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Medo



              Atracado no caís há já 13 dias, Clarstar mantinha-se firme e hirto, sem pestanejar, com frio e já com alguma fome decidiu mais uma vez explorar a zona que o circundava.

          Não comia nada desde a manhã e os parcos mantimentos que levara no barco chegariam agora para uns escassos dois dias. Tinha só três barris de rum e quatro de pólvora.

              Já putrefacto, o cadáver do seu companheiro emanava um cheiro nauseabundo e Clarstar decidira deitá-lo ao mar. Morrera de escorbuto, dez dias após se terem perdido e aportado àquela ilha deserta e misteriosa.
          Há já algumas horas que Clarstar ouvira o som de papagaios e aves exóticas. Caminhou alguns metros mas teve medo de avançar, aliás, era o medo que o impedia de se fazer ao mar e tentar regressar, o medo de se perder outra vez, o medo de arriscar, o medo de lutar.
             Clarstar tinha perdido a família no mar, durante um pacato passeio de Domingo e esta era a primeira viagem que fazia, após o trágico acontecimento. Pretendia ir viver para outro lado, para outro país, de forma a esquecer tudo o que vivera. Já tinha arriscado uma vez e via-se agora sem forças para lutar de novo.
              Não sabia o que fazer, estava completamente sozinho e perdido, se continuasse assim, iria morrer. As imagens daquela terrível tempestade que os tinha deixado perdidos no meio do Pacífico regressavam-lhe agora à memória com intensidade. Lembrava-se de ter acordado junto àquela ilha e, desde então, já por sete vezes tentara descobrir o que o rodeava.
              Tirou os três barris de rum e os quatro de pólvora do barco. Juntou-os todos e atou-os com uma corda. Puxou de um fósforo e, ao lançá-lo, ouviu-se um enorme … pi…pi…pi…pi…pi… era o despertador.
                Clarstar, um bem-sucedido homem de negócios finlandês, sabia agora que todos os dias valem a pena e que o medo não nos pode consumir!

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